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Mário Sérgio Cortella: 'a escolha profissional deve ser movida a sonhos'
 
O filósofo e educador defende a capacidade de sonhar. "Mas não no sentido de divagação, e sim de desejos construídos no cotidiano". Confira a entrevista.
 
24 de julho de 2007
por Cristiana Soares
 

Mário Sérgio Cortella é filósofo e educador. Doutor em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, leciona na PUC, Fundação Dom Cabral e Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), é colunista de jornais e autor de vários livros sobre filosofia, educação, e de crônicas, entre os quais “Não nascemos prontos” e “Não espere pelo epitáfio”, ambos da Editora Vozes. Nesta entrevista, ele fala sobre carreira, sonhos, liderança, ética, e muitos outros assuntos. Leia a seguir:

O sonho deve ser o propulsor da carreira?

Mário Sérgio Cortella – É, nós somos seres humanos movidos a futuro. Construímos no presente aquilo que a gente entende como sendo a escada para chegar ao futuro. Somos movidos a expectativa e desejo. Claro, há uma diferença entre expectativa e desejo porque o desejo é algo que você tem, mas não necessariamente vai procurar, por supô-lo às vezes inatingível. Expectativa é algo que se espera e aguarda. A palavra projeto significa aquilo que você lança adiante, projetar é jogar adiante. Então eu jogo algo adiante e vou buscar. Cada um de nós vive o dia-a-dia para construir o amanhã. Claro, tem que se viver o hoje também, mas não se vive apenas o hoje. Porque do contrário se ficaria num imediatismo extremamente arriscado e perigoso. Por isso, o sonho é parte fundamental, especialmente quando o sonho não se identifica com o delírio. Porque sonhar não é delirar. Delirar é sair da possibilidade, sonhar é ter uma expectativa a qual se queira atingir, delírio é a incapacidade de construir isso.

A procura da carreira tem de ser movida a sonhos. Mas insisto: não é delírio, não é divagação, não é distração. Sonho no sentido de desejo, de utopia é algo a ser buscado, construído no cotidiano, feito passo a passo ou como diria o (poeta Carlos) Drummond (de Andrade): “Escavar a casca do impossível até achar o possível lá dentro”. Quando você vai escavando, arrancando pouco a pouco a casquinha do impossível, até achar o possível lá dentro, o sonho vai se aproximando. Mas é necessário lembrar também que carreira, tal como o sonho, é um horizonte, não é um lugar aonde você chega, porque se você supõe que chegou no sonho, você fracassa, você desiste, você perde vitalidade.

O sonho é o horizonte, é algo que você vai buscando e, de fato, felizmente, não atinge por completo. Em latim, feito por completo é “per feito” – perfeito é feito por inteiro, feito por completo, isto é, acabado. Um sonho que acaba é algo que tira a vitalidade. Por isso, carreira é um processo, até o término da vida. Em que você vai sempre buscando novas situações. Alguém que se encontra num estado de satisfação, que acha que já está pronto, falece, e aí, portanto, ele tem uma morte cotidiana, a morte das coisas do dia-a-dia.

Os jovens ainda encaram a universidade como a solução de todos os problemas, o portal seguro para o mundo do emprego. Porém, sabemos que é só o início. Como explicar para um recém-formado que o desemprego é estrutural e ele vai ter de se reinventar o tempo todo?

A gente tem de se lembrar sempre da diferença entre emprego e trabalho. Trabalho é a sua ocupação, aquilo que você faz. Emprego é um tipo específico de trabalho subordinado a uma estrutura, uma hierarquia, a uma corporação. Hoje em dia, pais e filhos têm que entender que nós não temos mais no Ocidente, tal qual está, uma relação direta entre graduação e carreira. Você tem muitas pessoas que fazem engenharia que vão atuar como cozinheiro. Que querem fazê-lo. Você tem pessoas que fazem o curso de economia e vão dirigir uma pousada. Não há uma correspondência imediata entre graduação e carreira. Isso existia até há 20 vinte anos. Há 20 anos, se você fazia curso de direito era advogado ou alguém na área pública, ou na área policial. Se você fazia um curso de medicina, ia atuar nessa área. Hoje não há mais essa lógica. Para muitos e muitas, o curso de graduação é um nível de escolaridade que depois pode até ser alterado com os cursos de MBA, com a pós-graduação que se faz ou alguma especialização em outra área, e, portanto não há um vínculo direto com essa condição. Aliás, nenhum ou nenhuma de nós tem lugar garantido no futuro.

A carreira é uma coisa que se constrói e que se você faz um curso de quatro anos, por exemplo, de graduação, o quinto ano será o resto da sua vida. Se você faz um curso de cinco anos, então o sexto ano será o resto da sua existência. Não tem mais aquele padrão marcado, fechado. Aliás, isso é altamente positivo, porque não tem a ver com desemprego em si, tem a ver com reordenamento no modo como o trabalho é feito na sociedade. Havia aquela idéia que parte dos nossos avós e parte do meu pai, por exemplo, de que você entra em uma atividade, fica 40 anos em uma empresa. Era uma idéia marcada até na carteira de trabalho no Brasil. Há alguns anos ela tinha uma introdução que dizia assim: “A carteira é um documento do trabalhador para mostrar que ele é estável nos seus desejos ou não. Se ele é alguém que fica ou se ele é como uma abelha que vai de flor em flor, mudando...”

Vinha escrito isso?

Vinha escrito isso! Era uma introdução da carteira de trabalho.

Também eram tempos em que havia estabilidade no emprego...

Isso, estabilidade era o grande mote, o grande tema. Não é a mesma coisa. Hoje o jovem sabe, precisa saber que ele não necessariamente ficará naquilo que entra e não necessariamente vai ter a lealdade da empresa, da organização. Hoje o sistema de reordenamento, de reengenharia, de enxugamento de pessoal, de reposicionamento no mercado levam a que não haja necessariamente uma lealdade recíproca.

O que o senhor acha de as pessoas estarem contratando pessoas jurídicas e não pessoas físicas, para fugir de assinar a carteira de trabalho e das obrigações trabalhistas?

Quando você tem uma profissão na qual isso é possível, é adequado porque você tem uma reorientação da tributação.

E senhor vê isso como uma forma positiva?

Em algumas profissões, em algumas atividades. Por exemplo, advogados, algumas atividades médicas, atividades jornalísticas, as chamadas profissões liberais. Aquelas que permitem que você exerça sem necessariamente ter uma estrutura de patrão. Outras empresas estão fazendo cooperativas e essas cooperativas, se elas não forem bem geridas, podem ser uma forma de subemprego. Isso precisa de fato ser acompanhado pelo Ministério do Trabalho no cotidiano. Agora, a flexibilização em relação às chamadas atividades liberais como carpinteiro, como marceneiro, como professor, isso pode ser feito.

A universidade está cumprindo o seu papel de produtora de conhecimento e de pensamento? Ou se limita a formar futuros assalariados?

Você tem uma mescla disso. Por exemplo, as universidades públicas e as comunitárias têm um peso muito forte na produção da pesquisa dentro do nosso país. Mas uma parcela significativa no ensino privado não tem essa presença. Ao contrário, ele se limita a ser um legitimador e um diplomador de curso. Há uma ou outra exceção no nosso país, mas basta observar pelos chamados de indicadores de produção científica pelo mundo afora que o Brasil tem hoje uma posição que até melhorou nos últimos 15 anos, mas ainda é muito abaixo de outras nações. Por quê? Porque nós temos ainda uma maioria excessiva de ensino superior privado que apenas trabalha com aulas, não faz pesquisa, não desenvolve extensão. Agora, mesmo o ensino superior de alto nível, como o caso de várias públicas e comunitárias, ele precisa cada vez mais fazer parcerias com o setor produtivo para que não fique apenas fazendo a chamada pesquisa pura. Essa é necessária também. Mas que se trabalhe também com pesquisas aplicadas. E há várias organizações que estão fazendo parcerias, na qual se junta a universidade corporativa com a universidade acadêmica. E o resultado é melhor para ambos.

E os profissionais, os professores dentro de sala de aula, ensinam seus alunos a pensar, a refletir, ou também só são reprodutores de conhecimento?

Brinco sempre sobre isso de ensinar a pensar, digo que não há necessidade porque pensar é um atributo atávico da espécie, da nossa natureza. Talvez, quando a gente diz isso, a gente queira dizer pensar criticamente. Aí, sem dúvida. Uma parte pode fazê-lo, outra não, outra é mera reprodutora, faz aquilo que Paulo Freire chamava de “educação bancária”. Isto é, deposita, deposita, deposita e aí, ao final do mês, tenta dar um cheque que seria a avaliação para ver se ele vem com fundo ou sem fundo, como se o aluno fosse um mero recipiente. Agora, professores e professoras em escolas que fazem apenas isso, de maneira geral, o mercado de trabalho não procura. A universidade tem que ter uma autonomia maior e nós professores temos de nos formar nessa direção, por exemplo: é um contra-senso que num curso de direito todos os professores sejam exclusivamente professores dentro da universidade. Você tem que ter dando aula desembargadores, procuradores, delegados de polícia, que são os que vivem o cotidiano da profissão. Não pode haver apenas acadêmicos, como eu. É preciso haver quem se dedique só à pesquisa, mas também gente do mercado. É a mescla que funciona.

O emprego como conhecíamos acabou? Teremos que trocar emprego por trabalho?

Nem sempre em todos os lugares. Mas há uma tendência de um esforço maior na direção do trabalho. Claro que o emprego continua, as grandes massas no setor, especialmente no setor de produção primário e secundário, mas na área terciária há uma tendência maior para que se trabalhe mais nesse campo do trabalho em si. Não é que ele acabou, é que ele mudou de configuração. Tal como em outros momentos da história. E nessa hora, a formação precisa também ser um pouco mais multifacetada. Em vez de se ter hoje um generalista, preciso formar multiespecialistas, pessoas que estejam aptas a se reorientar naquele trabalho que estão fazendo.

Todos são capazes de se tornar empreendedores? Ou teremos cada vez mais empreendedores por falta de opção?

Existe o empreendedor voluntário, que é aquele que busca, que quer fazer, que quer abrir o seu negócio e iniciar um projeto, ou seja, o intencional. E tem aquele que é o empreendedor obrigatório, que precisa fazê-lo porque perdeu o trabalho, recebeu uma leve indenização e vai abrir na garagem da casa uma lojinha, um bar, alguma coisa desse gênero. Existe aquele que tem um espírito de procurar mesmo um empreendimento e procura cursos e vai atrás e aquele que o faz por ausência de alternativa. Eu acho que a gente tem muitas pessoas que querem, sim, ser empreendedores, e algumas que, no mercado, vão ficando sem opção. São constrangedoramente empreendedores. O empreendedorismo sem base, quer dizer, sem uma formação, sem um planejamento, leva ao fracasso. Há uma diferença entre audácia e aventura. O empreendedor tem que ser audacioso, jamais aventureiro. Um audacioso é aquele que planeja, estrutura, organiza, estuda e vai. O aventureiro é o ‘vamo-que-vamo’. Então claro que existe. Você pega os dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas): existe um nível altíssimo de falência ou de morte da empresa de pequeno ou médio porte no primeiro momento. Falta aí, inclusive, por parte dos cursos de formação de empreendedores, um currículo que seja mais estruturado para prevenir essas condições.

As empresas buscam líderes. O que é ser líder?

Líder é aquele que é capaz de inspirar, de motivar, de animar as pessoas a idéias e projetos. Liderança não é um dom, ela é uma virtude. Um dom é aquilo que nasce com você e você exercita sem nenhuma dificuldade. Liderança não é um dom. Liderança é uma virtude. Virtude é uma força intrínseca. Isso significa que por se uma força intrínseca, isto é, uma capacidade, qualquer pessoa é capaz de desenvolver essa capacidade. O que não existe é qualquer um de nós sendo líder em qualquer coisa de todos os modos o tempo todo, ou seja, a liderança ela é circunstancial. Alguns de nós lideramos numa área e não em outra. Alguns são ótimos líderes de projetos, mas são péssimos líderes de ação. Outros são capazes de liderar equipes e outros só idéias. No entanto, nenhum nem nenhuma de nós preenche todos os requisitos que hoje se coloca nos livros para que se seja um líder. Ninguém nasce líder, liderança se forma. Liderança se distingue de chefia, porque chefia está posicionado na hierarquia, enquanto que liderança é uma atitude. Por isso, empresas que buscam líderes são aquelas empresas que se os quiserem precisam formá-los. O líder é aquele que tem uma mente aberta, que procura trabalhar com a equipe e elevá-la, portanto, que tem uma postura coletiva, que busca inovar aquilo que faz, que é capaz também de introduzir alegria no trabalho – porque isso anima as pessoas – e que quer construir o futuro.

Fala-se muito em ética e em responsabilidade social hoje em dia. Tais conceitos são realmente entendidos e praticados?

Você tem hoje um grande movimento no capitalismo ocidental nessa direção, porque o capitalismo viveu, ocorrencialmente, um período de soltura, de frouxidão nos últimos 20 anos, em que houve uma desregulamentação forte, e isso gerou nos Estados Unidos e depois em outras nações, uma série de quebras. Casos clássicos como a da Enron (grande empresa norte-americana do setor de energia, que se tornou protagonista de um dos maiores escândalos financeiros da história, em que informações sobre lucros e dívidas foram omitidas e alteradas com a anuência de seus consultores) e outros grupos que acabaram maquiando seus balanços, dando prejuízos que remontam a quase US$ 40 bilhões, por conta deste descontrole. E aí apareceram várias leis regulatórias nos últimos cinco anos. No Brasil, a referência é o Instituto Ethos, que acaba ditando os passos de uma instituição, uma organização que queira ser socialmente responsável. Há algumas organizações que fazem da ética uma expressão cínica, apenas como uma marca dentro do mercado. E aí não é ética, é etiqueta. Etiqueta significa, na origem, pequena ética, coisas pequenas. A etiqueta é aquela que você cola e deixa grudado. Ética também tem etiqueta, mas a ética, como cosmética, ela se desmonta com facilidade. Agora, qualquer organização ou empresa que entrar nessa posição apenas e tão somente como uma forma de quimera, como uma forma de disfarce, ela não tem uma sobrevivência muito grande, hoje em dia, com o nível de comunicação que existe. Ela não tem perenidade. E aí, claro, ética e responsabilidade socioambiental são maneiras de se obter perenidade e ao mesmo tempo confiança da população e do consumidor. Insisto: ética não é cosmética. Quem o fizer deste modo apodrece a sua condição de futuro.

Fala-se em ética e, ao mesmo tempo, a competitividade nunca esteve tão acirrada. A impressão que se tem é que os jovens se sentem quase que na obrigação de deixar de lado os escrúpulos para conseguir um lugar ao sol no mercado de trabalho. É possível ser ético e competitivo?

É preciso ser ético e competitivo. Porque uma competitividade sem ética é predação, não é competição. É preciso, antes de mais nada, que se seja capaz de aliar formas de regulação da competitividade para que ela preserve a lógica do conjunto daquela sociedade. Aliás, um lema inicial forte que um jovem que deseja preservar a sua integridade precisa ter quando entra no circuito de trabalho é “não fazemos qualquer negócio”. Porque o lema de uma competitividade sem ética é a do “fazemos qualquer negócio”. É necessário inverter, é o “não fazemos qualquer negócio”, ou seja, tem coisa que não se faz. Bom, aí você poderia dizer “Mas se eu não fizer isso eu não entro no circuito”. Lamento, a escolha é sua. Ética pressupõe liberdade. Os cristãos têm uma frase que eles atribuem a Jesus que eu acho magnífica. Que Jesus teria dito “de nada adianta a um homem ganhar o mundo se ele perder a sua alma”. A escolha sobre perder ou não a alma é das pessoas. Está no nível da decisão individual. Pode ser que você tenha que adiar a entrada, pode ser que você tenha que não ter condições materiais, mas sempre será sua escolha. Vender a alma é uma opção.

Quais os desafios que a geração que está hoje entrando no mercado de trabalho terá de enfrentar?

A capacidade, antes de mais nada, de preparar-se para uma multiplicidade de alterações. É um mundo que muda velozmente, os cenários são turbulentos, as mudanças são velozes, o jovem não tem que estar hoje partindo o tempo todo, mas tem de estar preparado para partir. O principal desafio é abrir a mente para ficar em estado de prontidão para as mudanças. Em segundo, ser capaz do trabalho em equipe, porque não existe mais a possibilidade da exclusividade da competência individual. Hoje, minha competência acaba quando acaba a do outro. Num grupo, numa área, numa empresa, se a sua competência diminui, a minha diminui também, e essa percepção é fundamental. E terceiro, uma consciência ética forte para que o trabalho não degrade sua própria integridade. E esse desafio é muito grande. E, quarto, saber que não necessariamente graduação é o sinônimo de carreira, que você pode até fazer uma ou duas graduações diferentes na vida. O tempo de vida média estendeu-se, você poderá ter uma carreira que mude de rota, desde que você não perca a sua integridade física, moral e espiritual. Esses são os desafios principais. É necessário habituar-se com o desequilíbrio momentâneo, contrário à época de estabilidade contínua de nossos avós.

Como filósofo, educador e escritor, poderia traçar um paralelo entre essas profissões? Por que as escolheu?

A atividade de filosofia pressupõe que se tenha a capacidade de escrever um pouco. Agora, o trabalho como escritor, ou seja, a divulgação de obras no dia-a-dia e não exclusivamente uma pesquisa dentro da universidade, se alia quando a gente tem um desejo de comunicação. A filosofia deseja perguntar sobre os porquês, interpretar a realidade, não se conformar com o óbvio. A filosofia se dedica a pensar as razões da própria existência humana, o próprio embasamento em relação à ciência e à verdade. A filosofia, em última instância, lida com os porquês. Ela não se satisfaz com os “comos” das coisas, mas ela quer buscar um pouco dos porquês. Ora, é uma atividade a qual hoje, muita gente, ainda se dedica. Ela tem tido um espaço maior, inclusive, no mundo das organizações, várias empresas preferem também pessoas, não exclusivamente, mas também pessoas que têm formação no campo da filosofia.

Mas isso é uma coisa mais recente. Antes havia um preconceito maior. Filósofo era aquele que pensava demais...

É recente. Dos últimos 10 anos para cá. Sim, ainda tem um preconceito, filósofo é “aquele que não trabalha”... Mas hoje há organizações inteligentes, elas agregam dentro das suas estruturas pessoas com essa formação. Por outro lado, o trabalho de escritor pode ser desenvolvido por qualquer pessoa. No entanto ele se acopla com muita facilidade no campo da filosofia porque é uma questão de tradução, um pouco do trabalho filosófico para o trabalho da escrita. Eu gosto muito de fazer o que a gente chama de filosofia do cotidiano, tanto que dois dos meus livros, por exemplo, o “Não nascemos prontos” e o “Não espere pelo epitáfio”, ambos da Editora Vozes, são uma coletânea. Cada um deles com 30, 31 pensatas, reflexões, provocações sobre morte, tecnologia, vida, amor. Quem me inspirou foi um grande escritor que no ano passado faria 100 anos, o Mário Quintana. O grande poeta gaúcho que escreveu durante anos e anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, uma coluna chamada “Caderno H”. Em 1973, quando estava em meu primeiro ano de universidade, fazendo filosofia, ele lançou o livro “Caderno H” e eu li naquela época – era exatamente uma coletânea de parte das crônicas que ele houvera antes publicado. E aquilo me inspirou bastante. E eu imaginei que dentro da filosofia eu quereria fazer aquilo também. Então eu tenho alguns livros que são acadêmicos, voltados especificamente para a área de epistemologia, filosofia da ciência, outra no campo estrito da filosofia, alguns voltados para o campo da ética, como “Nos Labirintos da moral”, com o professor Yves de La Taille, da Universidade de São Paulo (USP). Mas outros são essa filosofia do cotidiano.

O interesse por esse tipo de livro tem crescido...

É interessante que hoje no Brasil, felizmente, há um interesse maior por essas reflexões filosóficas. Por exemplo, os dois livros que eu lancei há pouco mais de um ano e meio estão na quarta edição. Eles têm um público que não necessariamente é o público especializado da academia. Participei de vários eventos no campo do organizacional, encontros da área de recursos humanos ou de engenharia, por causa desses livros. Isso é um ótimo sinal. E não são só os meus livros, também os livros chamados de auto-ajuda. Eu tenho um amigo que brinca comigo de forma elogiosa dizendo que ele gosta porque eu escrevo livros de auto-ajuda, mas ele diz que é alto, com “L”. Perguntam-me se meus livros são de auto-ajuda e eu brinco lembrando que filosofia sempre foi auto-ajuda.

E o educador?

O educador é o trabalho da comunicação, a capacidade de fazer com que aquilo que se sabe possa ser repartido. Eu me inspiro imensamente na junção da filosofia, da escrita e da educação numa frase de um grande pensador do séculoVIII chamado São Beda (670-735), um europeu que, aliás, foi precursor de métodos de historiografia medieval. Um especialista em calendário. São Beda tem uma frase que serve para iluminar essa trajetória. Ele disse: “Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina e não perguntar o que se ignora”. E eu vou invertendo o lema de São Beda: Há três caminhos para a felicidade ou para o sucesso: ensinar o que se sabe, praticar o que se ensina e perguntar o que se ignora. É nesta hora, ensinando o que eu sei, praticando o que eu ensino e perguntando o que eu ignoro que eu junto a escrita à filosofia e à educação.

Fale-nos sobre os seus novos projetos. Há algum novo livro a caminho?

Eu tenho dois novos livros a caminho e estou reorganizando as discussões em torno dos livros “Não nascemos prontos” e “Não espere pelo epitáfio”. São livros que eu quero que em 2007 tenham uma progressão maior, especialmente porque eles ajudam muito o jovem a repensar sobre as suas atividades e carreiras. Estou concluindo com o Frei Betto um livro sobre esperança hoje. Será que é possível a esperança hoje? Deve sair pela Editora Papiros em setembro de 2007 e deve ser lançado na Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Estou também lançando um outro livro novo com a Vozes chamado “Pensatas pedagógicas”, que é um pouco de educação, poesia e política. São projetos nesta direção. Por outro lado, 2007 é um ano em que as minhas atividades como docente (já são 32 anos lecionando), seja na PUC São Paulo, seja na Fundação Dom Cabral, seja na FGV, estão se reorientando para uma discussão maior no campo do conhecimento, da perspectiva da ética. Estou procurando também ter maior presença no rádio, depois de 11 anos apresentando, ancorando e criando um programa de TV, “Diálogos Impertinentes” (TV PUC-SP). Deixei este projeto porque acho que está na hora de fazer uma renovação.

Matéria produzida para o site Bradesco Universitários em maio de 2007.

 
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