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Ariela Goldmann:'A profissão do ator é antiga, e está a serviço de uma história a ser contada'.
 
A diretora teatral Ariela Goldmann, premiada por "Novas Diretrizes em Tempos de Paz", fala sobre a formação de atores e a sua atuação pioneira na direção de lutas cênicas. São dela as cenas de luta de "Quincas Berro d'água", novo filme de Sergio Machado.
 
25 de abril de 2010
por Paula Quental
 

Ariela Goldmann

Diretora de espetáculos elogiada, especialmente pela peça "Novas Diretrizes em Tempos de Paz", recentemente transformada em filme pelo diretor Daniel Filho e que lhe rendeu vários prêmios, Ariela Goldmann é uma profissional versátil. Desempenha vários papéis em artes cênicas: atua, dirige, escreve, produz, faz preparação corporal e tem uma especialidade surpreendente para quem a vê, pequena e delicada, e na qual é pioneira no Brasil - a direção de lutas. Dirigiu lutas para os filmes "Linha de Passe", de Walter Salles e Daniela Thomas, a minissérie "Som e Fúria", de Fernando Meirelles, exibida pela TV Globo,  e "Quincas Berro d'água", novo filme de Sergio Machado, para citar alguns exemplos. Dá aulas de teatro e dirige novos atores formados pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-USP). Nessa entrevista exclusiva, ela fala sobre a formação dos atores, teatro, lutas cênicas, produção audiovisual e sobre seus próprios projetos.

Leia a seguir:

O que a levou a fazer faculdade de teatro: queria ser atriz ou já tinha interesse por direção?

Ariela Goldmann - Eu queria fazer teatro porque achava que o teatro era uma profissão muito completa. Quando a gente está montando um espetáculo a gente está ligado a história, a ciências humanas, a matemática. Quando prestei vestibular prestei para teatro e para psicologia. Aí entrei nos dois, mas não quis fazer psicologia. Fui para artes cênicas, tinha muita certeza de que era isso que eu queria. Queria trabalhar como atriz, desde lá no começo, nunca imaginei que viraria diretora. Fui fazer a ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, USP) e queria também, ao mesmo tempo, cursar a EAD (Escola de Arte Dramática, também da USP), mas só tinha 17 anos e a EAD exigia 18 anos completos. No ano seguinte prestei a EAD e fui até a última fase, mas na época havia a ideia de que o aluno da ECA poderia tirar a coesão da turma da EAD porque vinha de uma turma com vários grupos, uns que faziam direção, outros interpretação, outros cenografia, um pouco de tudo. Já na EAD eram só atores, não tinha essa variação. Só que isso mudou um ano depois dessa minha tentativa de entrar na EAD, mas aí não prestei mais. Porém, trabalhei muito com gente da EAD, meus contemporâneos. Nessa época chegou ao Brasil um diretor italiano (Francesco Zigrino), que foi o primeiro diretor a dar aulas no país sobre clown, Commedia dell’Arte. A primeira peça que fiz profissionalmente foi com ele e na qual trabalhava gente da EAD e da ECA.

Já nessa primeira peça você atuou como produtora também, além de atriz, e a peça ganhou um prêmio, o Mambembe de Melhor Espetáculo (1983). E na faculdade, como se deu a aproximação da direção?
 
Não havia nenhuma, eu nunca imaginei, sempre trabalhei como atriz, e sempre produzi as minhas coisas. No primeiro ano de faculdade comecei a trabalhar com essa peça, "Pinóquio", um Pinóquio feito com a "Sagração da Primavera" (balé com música de Igor Stravinsky) e uma técnica de teatro imagem que esse diretor italiano trouxe. Eu produzia e atuava, mas não imaginava ainda fazer direção. Lá eu conheci o (dramaturgo) Bosco Brasil, com quem formei uma parceria. Tínhamos um grupo que fazia muitas leituras dramáticas. Eu tinha uma postura muito crítica na faculdade, achava que ela não era muito forte na parte prática, embora a teórica fosse maravilhosa.
 
Quando você decidiu estudar em Londres e o que a fez tomar essa decisão?

Quando eu estava para me formar na ECA eu sentia que na parte prática não estava bom. Eu queria estudar fora. Olhando hoje, vejo que tinha pretensões de fazer uma carreira fora. Me sentia insegura com a minha formação prática. Também queria estudar um tempo fora. Aí fui pesquisar o que existia. Naquela época não existia internet, tinha que pegar o catálogo das escolas, escrever para todas elas, mandar pelo correio, levava semanas. Fui pesquisar e cheguei a dois cursos, um no LAMDA (London Academy of Music and Dramatic Art), uma grande escola, que tinha um curso de verão, com duração de um mês, sobre Shakespeare. Para fazer esse curso precisava mandar cartas de recomendação. A (professora e crítica teatral) Barbara Heliodora me deu, porque já me conhecia pela montagem que tentei fazer com esse mesmo diretor italiano de "Sonhos de uma noite de verão", de Shakespeare, cujo texto ela traduziu para o português. Aí o (professor e diretor teatral) Marcio Aurélio me deu outra carta, enfim, fui aceita. O outro curso era para me especializar em trabalhar com voz. Não sei por que escolhi esse, talvez por causa daquela visão pragmática, pensando em conseguir trabalho, que acaba não servindo pra nada. Fui fazer o LAMDA e no primeiro dia o meu queixo caiu, literalmente: aquilo era tudo o que sempre tinha sonhado. Quando você chega lá, a primeira coisa que você recebe é a chave da escola. Isso significa que a aula começa às 10h, mas que às 8h15 todas as salas já estão ocupadas, as pessoas estão ensaiando por conta própria. Você sente que aquilo é seu.

Mas você acabou cursando mais do que esse curso de um mês dedicado a Shakespeare...

No LAMDA há um curso de um ano para estrangeiros de teatro clássico e moderno. Acho que hoje esse curso tem dois anos. Quando eu li o que era pensei que nunca entraria. É muito concorrido, com exames em Nova York, Vancouver, Los Angeles, Miami, Londres. Há uma visão na Inglaterra de que quanto mais gente sai empregado da escola melhor ela é. E o LAMDA é a segunda da Inglaterra por sua qualidade, mas também porque ela forma o ator para estar disponível para trabalhar com diretores de diferentes metodologias de trabalho. Então ela seleciona muito bem. Diretores de elenco de cinema, de teatro, de grandes companhias vão assistir aos espetáculos dos alunos do LAMDA. Achei que não era para o meu bico. Mas quando estava nesse curso de um mês, tinha uma professora que virou pra mim e me questionou se eu realmente queria fazer o tal curso de voz. Ela perguntou por que eu não fazia o curso de um ano. Eu disse que achava que não dava conta, mas ela falou: tenta. Passei no exame para o curso de voz, mas vi que não era isso. Agradeci, voltei ao Brasil e fiquei oito meses me preparando para o exame de um ano. O diretor italiano com quem tinha trabalhado foi quem me preparou – fiz o exame e passei. Fiquei super feliz. E com certeza foi um dos anos mais felizes da minha vida, um dos mais ricos, e tudo o que eu aprendi nesse período (1989-90) está comigo até hoje.

E a ideia de dirigir espetáculos, foi aí que tudo começou?

Eu me formei na ECA em 1986, e continuava trabalhando, produzindo meus espetáculos. Aí fui para esse curso de um ano no LAMDA e essa professora foi muito importante porque ao longo desse curso ela era tutora da minha turma. Funciona assim: sempre tem um professor que acompanha a turma, e a cada seis semanas, quando montávamos um espetáculo, tínhamos uma reunião com ela de 15 minutos. Nessa reunião ela dizia como cada um estava indo, o que precisaria trabalhar mais. Essa professora, a certa altura, quando estávamos encenando "Seis Personagens à Procura de um Autor", de Pirandello, virou para mim e perguntou, na lata: Ariela, por que você acha que essa cena não está funcionando? Aí falei o que achava. Ela virou pra mim e perguntou: você já pensou em dirigir? Eu, de jeito nenhum, nunca. Ela falou: porque eu acho que você seria uma excelente diretora, você sabe quando uma coisa não está dando certo. Eu ouvi isso e esqueci. Dez anos depois, quando fui dirigir o meu primeiro espetáculo e entrei na sala de ensaio a primeira coisa que me veio na cabeça foi essa mulher falando comigo. Isso me deu muita segurança.

Levou um tempo, depois que você voltou ao Brasil, até dirigir essa primeira peça ("O Acidente", texto de Bosco Brasil), em 2000. Até lá trabalhou como atriz?

Quando terminou o curso em Londres, o diretor que tinha me dirigido em "Rei Lear", de Shakespeare, virou para mim e perguntou: está pensando em fazer uma carreira aqui? Falei: não sei. Eu acho que você poderia fazer uma bela carreira aqui na Inglaterra, ele disse. Só teria de melhorar ainda mais o inglês. Ele me falou isso na semana do Plano Collor no Brasil (que, entre outras medidas, fechou a Embrafilme, e deu início a uma época muito difícil para a produção cultural). E eu fiquei super dividida, minha mãe me ligava dizendo para eu não voltar de jeito nenhum, mas, para regularizar a minha situação na Inglaterra, teria de esperar dois anos para poder trabalhar. Meu pai tinha passaporte austríaco e eu tenho também, mas não queria ficar em Viena. Aí pensei: vou sempre me sentir estrangeira aqui, dividida com isso, e não vou aguentar dois anos sem poder trabalhar. Enfim, decidi voltar. Voltei, peguei meu currículo, mas tive uma recepção ruim, ninguém queria ouvir falar de curso de teatro clássico e moderno em Londres.

Por quê?

Um motivo era que ninguém naquela época ia para fora estudar. Outro, que muitos acharam que, por eu ter estudado Shakespeare, ia achar que já sabia tudo. O único que me convidou para trabalhar com ele foi o Márcio Aurélio, que estava fundando a companhia Razões Inversas. Entrei para fazer uma substituição num espetáculo e aí ele foi montar "Comédia dos Erros", justamente de Shakespeare. De qualquer forma, havia muitas diferenças de metodologia. Aqui, ensaiava-se oito horas por dia, dizia-se que o importante era o processo, não o espetáculo. Enquanto que a minha experiência na escola londrina foi muito pautada na simplicidade. Ensaiávamos todas as tardes durante cinco dias da semana e no fim de seis semanas tínhamos um espetáculo, por exemplo, um "Rei Lear" pronto. De manhã tínhamos aula de corpo, voz e de stage fight, que são aulas de lutas cênicas, de espada, adaga, chute.
 
Foi essa experiência que te levou a se tornar também diretora de lutas cênicas, algo novo no Brasil?

Quando eu voltei, a Célia Helena (atriz e criadora do Teatro Escola Célia Helena, falecida em 1997) soube que eu fazia isso. Começaram a me chamar para dar aulas e vi que era uma possibilidade de trabalho. Então voltei para a Inglaterra, e pedi para estagiar com os meus dois ex-professores, John Waller e Rodney Cottier. Eu sei lutar, mas ensinar é outra coisa. Fiquei um mês estagiando com eles, nove horas por dia, tanto lutando quanto acompanhando o trabalho deles com atores, cantores de ópera. Em 92, fiz a primeira direção de lutas, para "Dois Perdidos Numa Noite Suja", texto de Plínio Marcos e direção de Emílio di Biasi. Foi a primeira luta que fiz e já recebi uma indicação para o Prêmio Apetesp - Melhor Coreografia.

Antes de você, nenhum diretor trabalhava no país com um profissional especialista em direção de lutas. Como era o resultado? E como entenderam a importância do seu trabalho?

Ninguém sabia fazer. Ia no improviso e o resultado sempre era muito ruim. Depois, começou a ter um boom. No teatro eu trabalhava muito, e criei um jeito meu. Porque é raro ter espada – até tem, como na minissérie "Som e Fúria" (exibida pela TV Globo em 2009, com direção de Fernando Meirelles), na qual trabalhei fazendo a direção das lutas. Mas no geral eu trabalho com peixeira, soco, chute. Brinco que o dramaturgo que sempre me deu mais trabalho é Plínio Marcos. Então fui trabalhando sozinha nesse tempo, sem ninguém para me reportar, me virando para resolver as dificuldades que surgiam. Depois, com a retomada do cinema nacional, comecei também a ser solicitada para dirigir lutas nos filmes. Mas com muitas dificuldades, porque em geral as produções não incluem esse tipo de trabalho nos orçamentos. Tenho sempre que explicar que o trabalho que faço com os atores vai economizar tempo no set de filmagem (o que reduz os custos!) e dar qualidade para a obra.
 
E as pessoas acreditavam que você, uma mulher, sabia dirigir lutas?

Quando fiz "Cidade Baixa", chamada pelo diretor, Sergio Machado, me contaram depois que um ator, quando soube que era uma mulher que ia dirigir as lutas, comentou: iiiihh vão ser só uns tapinhas. Aí no meio da filmagem da cena que dirigi, numa hora em o Wagner Moura estava dando um chute na barriga do Lázaro (Ramos), chega o diretor de produção. Ele fica assustado e pergunta se precisa chamar uma ambulância. É um chute que faz um grande barulho, mas não acontece nada. Parece que é uma super briga, mas os atores não sofrem um arranhão. É esse o trabalho. Os movimentos devem servir à história que o diretor quer contar e eu não trabalho com dublês, faço os próprios atores brigarem.

Você chegou a fazer aulas de luta de verdade?

Além das que fiz na Inglaterra, não. Fiz tai chi chuan, um pouquinho de capoeira, sempre gostei de movimento. Nunca me interessei especificamente por luta, sempre quis fazer muita aula de dança. Tinha feito balé clássico, fiz bastante expressão corporal.

Mesmo ainda dirigindo lutas cênicas, você se considera hoje, antes de tudo, uma diretora de espetáculos. Como se deu essa passagem?

Eu comecei a ensaiar "O Acidente", em dezembro de 99, tinha acabado de receber a indicação o Prêmio Shell pelo conjunto do trabalho de lutas cênicas. Fiquei feliz só de ter sido indicada e depois conquistei de fato o prêmio. Estava começando a dirigir a minha primeira peça e senti que aquele era um caminho para mim. Logo de cara consegui dois atores maravilhosos, a Denise Weinberg e o Genézio de Barros, que toparam a minha proposta, confiaram em mim. Depois dessa peça, fui convidada pela EAD para dirigir "Ao Papagaio Verde", de Arthur Schnitzler, que também participou da 6ª Mostra SESI de Artes Cênicas. Participei do projeto Formação de Público, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, com "Caiu o Ministério!", uma comédia de França Júnior de 1882. Dirigi "blitz", de Bosco Brasil, para a Mostra de Dramaturgia Contemporânea, idealizada pelo Renato Borghi. Aí em 2001 dirigi "Novas Diretrizes em Tempos de Paz" que era para ser uma apresentação só, levantamos o espetáculo em nove dias, e foi esse estouro (a peça ganhou vários prêmios, inclusive o Qualidade Total 2003 de Melhor Direção, APCA e Shell de Melhor ator para Tony Ramos e Dan Stulbach). Ficou três anos em cartaz, rodou o país, foi para Portugal. O trabalho foi interessante porque foi uma direção em que servi totalmente à história, eu desapareci no trabalho. O meu entendimento é que a boa direção é a que serve à obra.
 
Ao escolher uma peça para dirigir, há temas que te seduzem mais que outros?

É muito difícil saber o que faz a gente montar um espetáculo. É meio como se fosse um amor, que a gente não entende muito bem porque acontece. "O Acidente" era a história de duas pessoas que se idealizavam e que, por isso, tinham dificuldades em se relacionar. "Caiu o Ministério!" era de um autor que foi o Nelson Rodrigues de sua época, e fez uma crônica debochada da capital federal do final do século 19 que parece Brasília de hoje. "Edmond", peça que estreei em 2006, com texto de David Mamet, falava de preconceito, racismo, homofobia. E tem uma coisa musical em autores contemporâneos, como o Mamet, que não é na verdade música é ritmo. O ritmo é o que dá sentido ao conteúdo. É preciso saber trabalhar com isso. E eu também adoro trabalhar com isso.

Como vê a cena teatral no Brasil hoje?

Muito rica, muito variada e muito mais articulada em relação às suas reivindicações e sua importância cultural e econômica. 

E a área audiovisual? A retomada do cinema brasileiro é um fato, pode-se falar em uma indústria do cinema no Brasil? E a produção independente para a TV?

Acredito que a retomada do cinema brasileiro seja um fato, mas acho que ainda precisamos de mais um pouco para falar em indústria do cinema. As condições de produção ainda são difíceis e as de distribuição quase impossíveis. Quanto à produção independente, a TV ainda absorve muito pouco em relação ao que é e ao que poderia ser feito (com muita qualidade, diga-se de passagem).

Recentemente você dirigiu uma peça, "Narcisianas", que também é sua estreia como autora, já que o texto é seu. E fala em dirigir um filme em futuro próximo, também com roteiro próprio. O cinema e a autoria são novos desafios?
 
Não sei quanto a virar autora, não sei para onde vai. Me vejo como uma diretora que eventualmente trabalha um texto quando quer experimentar alguma coisa no seu espetáculo (como foi o caso de "Narcisianas"), ou quando não encontra um texto pronto com aquilo que deseja falar no momento. Em "Narcisianas" eram 11 homens em cena, como se fossem 11 narcisos. Escrevi de uma vez, deu 28 minutos de peça, era quase uma performance. Foi uma experiência muito forte, você escrever um texto e ver os outros encenando. E tenho uma tendência a escolher temas nem sempre muito cômodos. O tema de "Narcisianas", que discute a relação entre o universo masculino e narcisismo, não é fácil, as pessoas diziam que estavam assustadas comigo. O roteiro do filme que pretendo fazer, o seu eixo, é o que a classe média é capaz de fazer para manter-se classe média, a despeito de pruridos morais. Mas quero falar sobre isso com muito humor. Dirigir para cinema é um grande desafio. Aproveito todas as oportunidades que tenho quando vou dirigir as lutas dos filmes para aprender com os cineastas com quem tenho tido a sorte de trabalhar. Vamos ver se um dia eu chego lá.

Como você vê a formação do ator hoje no Brasil? Há boas escolas? Quais são as "falhas" na formação do ator brasileiro, se é que elas existem?

Como em qualquer profissão, temos escolas boas e outras não tanto, então a formação de nossos atores nem sempre é muito completa. Acredito que um dos maiores problemas que enfrentamos hoje é que existem muitas pessoas que procuram a profissão porque desejam se tornar celebridades (muitas vezes confundindo ser famoso com ser amado, o que é um grande perigo). Só que ser ator vai muito além disso. É uma profissão muito antiga, cheia de tradições e que está sempre a serviço de uma história a ser contada para o público, que é o que realmente importa. É uma profissão maravilhosa, mas que exige muito trabalho, muita paciência consigo mesmo, muita tolerância com o outro e muito desprendimento. Uma escola às vezes pode ser falha em algum aspecto técnico, pode não ter as instalações ideais, mas quando uma escola deixa de mostrar para o aluno que sua profissão é um ofício e não uma escada para a fama, ela vai ser terrível não só para esse jovem, mas para o teatro (a TV e o cinema), o que é bem mais grave.

Há um jeito brasileiro de atuar? E de dirigir?

É provável, no sentido que somos o resultado da cultura em que vivemos, do clima, da comida que comemos, da música que ouvimos. Quando fiz o curso na Inglaterra, atuei com atores dos Estados Unidos, Sri Lanka, Paquistão, Suécia, e me lembro que era muito bacana ver como cada um trazia em sua atuação um pouco dessas diferenças de cultura. Mas é muito difícil de perceber isso na gente mesmo. E, ainda bem, temos tanta diversidade em nosso país que os "jeitos" se multiplicam em várias maneiras, o que é ótimo.

Por que, na sua opinião, o jovem vai pouco ao teatro hoje em dia? Há quem diga que o teatro é sustentado pela terceira idade.

Não acho que o teatro esteja sendo sustentado pela terceira idade. Estou sempre no teatro e vejo uma variedade de público muito grande (terceira idade incluso, o que é ótimo).  E não tenho certeza de que o jovem vá pouco ao teatro. Quando os preços são acessíveis (como, por exemplo, os espetáculos do Sesc ou do Sesi) o público jovem comparece em peso. Acho que hoje temos muito mais jovens estudando e trabalhando, o que significa uma carga horária bastante puxada e um tempo mais curto para o lazer. E as opções de lazer também se multiplicaram. Então, o teatro, assim como a televisão e o cinema, concorre com a internet, o barzinho, a danceteria, o jogo de futebol, pegar um DVD, assistir um show, o passeio no shopping, e assim por diante.

Quais os principais desafios que você enfrenta ao dar aulas de teatro para universitários e dirigir os espetáculos da EAD? Quais são as questões que os jovens de hoje te trazem?

Os principais desafios: Fazer eles perceberem qual é a natureza do ofício que escolheram; encontrar ferramentas para baixar sua ansiedade; fazer eles perceberem que estar vulnerável não é um defeito mas uma oportunidade; fazer eles ligarem a forma (a interpretação) ao conteúdo (texto). Existe muita vontade de saber "como faz" e pouca de saber "o que" ou "por que faz". Acho que as questões estão nos próprios desafios.

Outro trabalho que você desenvolve é como coach, ou que você chama de direção de narrativa, voltado a profissionais de diferentes áreas. Você já teve oportunidade de ter clientes jovens (15 a 25, mais ou menos) nesse trabalho? Quais são os problemas mais comuns dessa geração?

Tive sim. Atendi uma moça de 16 anos que faria uma apresentação musical que significava muito pra ela. Ela cantava muito bem, mas não estava conseguindo se soltar porque tinha criado muita expectativa em torno do resultado. Foi um trabalho muito bacana no sentido de fazer ela se focar no que aquilo significava para ela e não no que poderia significar para os outros. Acho que o jovem tem essa divisão muito forte, e às vezes muito dolorosa, dentro de si: aquela de diferenciar os seus desejos dos desejos que os outros têm pra eles. Trabalhei também com uma jovem universitária para uma apresentação de projeto de TCC e ali aconteceu uma coisa interessante: no início ela falava muito rápido e sem parar, era muito difícil de entender. Havia ali uma ansiedade muito grande, um problema não só dos jovens, mas do nosso tempo. Encontramos um jeito de ela começar a falar com mais calma e respirar mais trabalhando em cima de como ela se comunicava pela internet.

Bate-bola

Um autor de teatro: Dois: Shakespeare e Tchecov.
Um espetáculo de teatro: Um? Todos! Os maravilhosos, os interessantes e os ruins. E o que estão em cartaz neste momento (dê uma olhada: tem pra todos os gostos)
Um filme de luta: Não sou chegada em “filmes de luta”, mas indico "Os Duelistas", de Ridley Scott (porque as lutas são parte fundamental de uma grande história), "Menina de Ouro" (Clint Eastwood, um craque) e "Cidade Baixa" de Sergio Machado, onde fiz a luta final entre os personagens do Wagner Moura e do Lázaro Ramos, da qual muito me orgulho.
O que faz o ator ser bom: paixão, paciência, desapego e humildade.
O que gosta de ler: peças (uma maravilha pra todos os gostos: 2.500 anos de possibilidades pra escolher na dramaturgia), romances (adoro Philip Roth, me apaixonando por Clarice Lispector) e jornal (no papel).
Um programa de TV: "Law & Order", documentários, às vezes David Letterman e novela (especialmente se do Silvio de Abreu ou do Gilberto Braga).
Um arrependimento: Não sou muito chegada a arrependimentos; acho que a gente sempre faz o que pode no momento. A vida anda e o que passou, passou.
Um sonho: Um só? Um monte... Que a gente tenha melhores condições de produção e distribuição na área cultural, meu próximo espetáculo, conseguir escrever e dirigir meu filme, trabalhar com este ou aquele ator, iluminador, cenógrafo... Sonho é o que não falta.
Um momento inesquecível: Sentir a plateia respirando junto com os atores em cena e meu encontro com o Gianni Ratto estão entre as minhas melhores lembranças.
Ioga ou jiu jitsu? Nada contra jiu jitsu mas, definitivamente, ioga (e boxe).
Uma frase: O homem planeja e Deus sorri.

Matéria produzida para o site Bradesco Universitártios em 9/02/2010.

 
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