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Amyr Klink: 'É preciso ter brilho nos olhos, não basta ser competente'
 
Nessa entrevista para o público universitário, o navegador, economista e escritor fala sobre envolver-se emocinalmente com a profissão para ter sucesso.
 
20 de dezembro de 2009
por Cristiane Moraes
 

Amyr Klink nasceu em São Paulo, em 1955. Formou-se em economia e administração, mas é conhecido por suas viagens ao redor do mundo. Ele registrou em livro diversas de suas experiências náuticas, como a travessia a remo do Oceano Atlântico, narrada em “Cem dias entre céu e mar” (1995), a expedição de quase dois anos entre a Antártida e o Ártico (“Paratii: entre dois pólos”, de 1992) e a primeira volta ao mundo realizada nas águas da Convergência Antártida, onde estão os mares mais perigosos do planeta (“Mar sem fim”, 2000). É autor ainda de “As janelas do Paratii - 112 fotos” (1993) e “Linha d’Água: Entre estaleiros e homens do mar” (2006). leia a entrevista, a seguir:

A sua formação é em economia e administração. Chegou a fazer carreira nessas áreas?

Amyr Klink – O meu primeiro estágio foi em um banco. Eu não gostei do trabalho na época, e eram tempos complicados no Brasil por causa da inflação muito alta. Toda a parte de análise contábil e financeira era envolta em névoas. Não tínhamos a sensação da realidade econômica por meio dos números. Mas foi uma experiência extremamente importante para o que eu faria depois, embora eu não me desse conta na época. Eu morava em São Paulo, o que também não me agradava. Então decidi começar a trabalhar com barcos em Parati (RJ). Durante oito anos trabalhei em negócios diferentes, desde a área imobiliária, laticínios e por último comecei a me dedicar à construção do primeiro barco.

Neste momento já imaginava fazer a primeira viagem?

Eu comecei a me interessar por leitura de viagem e estudei durante muitos anos a literatura francesa até um ponto em que eu cansei de ler autores franceses. Eu gostava do universo dos barcos, mas nunca imaginei isso como profissão e até hoje ainda não imagino. Era apenas um interesse pessoal que acabei levando muito a sério. A experiência de ter trabalhado com leite em uma região altamente deficiente de recursos também foi interessante. Eu misturei a experiência de trabalhar em uma grande empresa da área financeira e depois de uma região extremamente carente de estrutura – em que pude começar a colocar em prática o que tinha estudado durante muitos anos na universidade.

Mas a navegação ainda era só um hobby?

Ainda é um hobby para mim, embora a gente construa barcos para terceiros. Mas a gente só faz projetos especiais. Eu não tenho interesse de transformar nenhum projeto em negócio. Nessa época comecei a aprofundar meu interesse pela navegação e observava muitos barcos que vinham de outros países. Era um mundo para mim inacessível. No Brasil havia barcos em iates clubes. Havia uma restrição social para ter um barco e aquilo nunca me agradou. E de repente eu encontro franceses, japoneses, australianos passando pela cidade com barcos que eles fizeram no quintal de casa. Achei interessante e, sem querer, surgiu a minha primeira idéia do projeto da viagem pelo Atlântico no barquinho a remo.

Você já deu inúmeras entrevistas sobre como resolveu embarcar na viagem de atravessar a remo o Oceano Atlântico, travessia que o tornou célebre. Poderia dizer ao Bradesco Universitário sobre o que mais o marcou nesta experiência?

Eu morei na cidade de Parati e nunca gostei de futebol. Tive a oportunidade de praticar na faculdade um esporte que me ajudou bastante como formação e como círculo de amizade, o remo. Um colega de remo é um cara em quem você pode confiar. Eu adorei a experiência do remo e li um livro de um francês que falava de algumas experiências fracassadas e achei quase cômico. De repente encontrei um outro livro (de navegação) que me encantou. Foi a primeira vez que vi em uma atividade completamente diferente um pouquinho de tudo que eu tinha questionado, aprendido ou praticado, desde a faculdade de economia, da administração, das leituras e também um pouco do meu trabalho na região (de Parati).

Entendi que o (autor) francês foi extremamente hábil, não só na coragem de se lançar no Atlântico com um barco a remo, mas na capacidade de entender quais eram os riscos, se organizar para resolver e friamente administrar os pequenos detalhes que eram muito mais críticos do que as grandes dificuldades. Eu achei muito interessante este livro e, sem querer, me lancei na idéia de fazer uma coisa semelhante no Atlântico Sul, onde a distância era um pouco maior.

Nessa primeira viagem eu diria que eu fui até mais competente do que esse sujeito que me inspirou. Eu não tinha cultura nenhuma náutica, coisa que na França todo mundo tem. O Brasil não tem mentalidade marítima e nenhuma facilidade. Então eu não podia cometer erros. Virou uma espécie de interesse quase cultural. Eu estudava tudo sobre pequenas embarcações, estabilidade, problemas climáticos. Comecei a estudar história, os regimes de ventos, descobri porque o Brasil não foi descoberto em 1500, ao contrário do que a grande maioria dos professores de história ingenuamente conta. Tudo isso fazia parte de um projeto que era quase uma brincadeira.

Muitas pessoas questionavam se eu teria resistência para o desafio, mas desde o início sabia que não era um desafio de resistência física, e que o problema eram as tempestades da costa. Para mim, foi uma experiência muito gratificante. Dois anos depois, cem dias mais tarde, eu cheguei no Brasil. Estava muito contente, não pela travessia, mas pelo fato de ter mergulhado em detalhes que pareciam muito distantes de uma experiência intensa no mar. Foi uma grande escola e eu quebrei um monte de preconceitos que eu tinha em relação a resistência, durabilidade, ao modo de projetar uma embarcação. Levei um ano para descobrir que eu tinha que agir de modo contrário. Eu não tinha que fazer um barco que não capotasse, mas, sim, tinha que me preparar para capotar continuamente, e não tentar evitar os problemas que poderiam acontecer.

O que a sua formação ajudou nesse desafio?

Eu achei o curso de economia muito ruim. Esse é o grande desafio do Brasil, que é investir na qualidade do ensino. Senti problemas que talvez os universitários sintam menos, ou não. Era difícil conseguir um estágio. Hoje as instituições vão buscar e cultivar seus estagiários e futuros executivos. Vejo muitos jovens que apostam na carreira porque têm emprego na área ou paga bem. Na minha opinião, o universitário que faz escolhas baseado nisso vai fracassar na vida. Eu não conheço nenhum exemplo de sucesso de alguém que tenha escolhido uma escola pensando em se dar bem. A profissão tem que ser uma coisa que misture a dedicação, o esforço, uma competência que aos poucos você vai assumir, mas tem que haver o prazer em uma atividade. Por exemplo, um advogado que não sinta prazer em defender uma causa nunca vai prosperar. Hoje você só vai se destacar se conseguir trazer algo a mais, independentemente de ser uma profissão ou um curso não muito bem considerado nos aspectos remuneração ou emprego.

Você tinha alguém na família que gostava de barcos?

A tradição de navegação na minha família era zero e continua assim. Eu não tive nenhuma inspiração dessa espécie. Como a primeira viagem envolveu dois ou três anos de estudo, e a construção do barco, eu fazia escondido. Costumo fazer algumas brincadeiras de que o estágio do banco era horrível, tedioso, mas também foi importante. A experiência de ter trabalhado em uma instituição em que existem regras contribuiu muito depois no caso do barco. Eu tive o apoio secreto da minha mãe e, no final, foi interessante ganhar credibilidade em uma área que não era minha formação. Não sou engenheiro, navegador ou velejador experiente. A experiência da escola e do primeiro trabalho foi preponderante para os passos seguintes nos meus planos de navegação mundial. Entendi que tinha que empreender um meio de tornar isso viável, o que não significava apenas conseguir dinheiro, barco, e sair. Tinha que me estruturar para isso, montar uma pequena empresa, contratar pessoas, achar um meio sustentável para essa atividade. Sobreviver até que tivesse conhecimento e meios suficientes para iniciar o primeiro projeto.

Você atribui o sucesso dessa primeira experiência que mudou sua vida também à capacidade de planejamento?

Foi uma experiência à qual me dediquei com muito carinho e convicção. Cometi erros, fui prepotente no início querendo resolver os problemas de maneira simplista, até entender que eu tinha era que administrar um número muito grande de variáveis. Esse modo simplista de pensar, infelizmente, é o que a escola ensina hoje. Ela não ensina um aluno a assumir as responsabilidades. Todo mundo pensa em ter um grande emprego, receber o salário, terminar o expediente e ir para casa se divertir. Não existe mais isso no mundo moderno. Sendo empregado, ou não, as pessoas são obrigadas a administrar a própria carreira, os próprios prazeres e os próprios interesses.

O planejamento foi fundamental para o sucesso em alto mar?

Acho que existe um endeusamento do planejamento, embora eu seja freqüentemente convidado a ministrar conferências sobre isso. Acho que a gente olha para o planejamento de modo simplista no Brasil. Todo mundo admite que institucionalmente o nosso país não sabe pensar no futuro, embora tenha competência para isso, mas o planejamento não é a única solução. Acredito que não existe ter planejamento e não ter ética, por exemplo. Não adianta ter planejamento e não ter dedicação ou não ter capacidade de comunicação.

Ultimamente, descobri uma coisa interessante, entre centenas de necessidades para o êxito na vida profissional. Hoje a gente constrói projetos que envolvem muita tecnologia, soluções quase sempre inovadoras ou polêmicas, e a gente não tem espaço para errar, e graças a Deus nos últimos 20 anos erramos muito pouco. Eu sempre fui entusiasta do profissionalismo no trabalho, mas, de uns cinco anos para cá, descobri que não basta ser profissional. Não confio hoje em pessoas que agem com profissionalismo. Os profissionais são viciados, prepotentes, cumprem sua tarefa e vão para casa. Nós percebemos que a competitividade é tão grande, os recursos e informações são tão grandes que não é suficiente ser profissional. Tem que haver algo mais, e esse algo mais é exatamente esse amor a uma atividade e o envolvimento emocional.

O que contraria muito o que se ensina nas escolas hoje. Não dá para confiar em um sujeito que seja extremamente competente na sua área se ele não tiver uma índole participativa, se a gente não sentir que o cara tem o brilho nos olhos quando está fazendo alguma coisa. Alguém que é simplesmente competente e rigorosamente profissional, bem-sucedido, não é suficiente.

Para um jovem que se inicia hoje no mercado de trabalho, pode-se dizer que este é tão ameaçador e desconhecido quanto o oceano?

Hoje o jovem que ingressa no mercado, saído das universidades, tem um desafio que acho que é muito maior. Porque há uma dificuldade de sucesso econômico. A competitividade é muito grande, as chances de evolução são muito pequenas. Exatamente por isso, hoje, mais importante do que ter feito alguma escola é o algo mais, que está no comportamento, na índole da pessoa, muito mais do que naquilo que ela carregou de aprendizado e experiência.

O que aconselharia a um jovem que está iniciando a carreira? Que postura ele deve desenvolver para ser bem-sucedido?

Ele não deve ter receio de se dedicar a alguma coisa de que ele goste, embora não seja algo tecnicamente de futuro. Eu vejo muitos jovens que gostariam de exercer uma atividade, mas os amigos, colegas e família questionam o futuro dessa escolha. Eu acho que não ouvir conselhos demais é um bom conselho. Por outro lado, percebo muitos jovens questionando a escolha que fizeram da profissão, mas é importante ir até o fim. Esse exercício acadêmico de aprender e questionar é importante. Eu acho que um sujeito que tem um histórico de uma carreira em odontologia, por exemplo, que ele não tinha vocação, esse histórico também pode prepará-lo para uma atividade completamente diferente. É muito comum isso hoje. Mesmo quando a gente não gosta, é importante levar a sério as escolhas feitas. E quando for se dedicar a alguma coisa de que se gosta, deve-se aprender mais sério do que uma atividade profissional ou comercial. A opção pelo que você gosta de fazer tem que ser levada a fundo. Eu acredito que não é a qualidade da escola ou o brilho do diploma que vão proporcionar o sucesso. Outra coisa é a curiosidade, é interessante em qualquer atividade aprofundar conhecimentos.

Dos livros que escreveu, o primeiro, “Cem dias entre céu e mar”, ainda é o mais vendido?

Sim, com a editora Companhia das Letras vendeu 600 mil exemplares, mas vendeu mais de um milhão de cópias porque esteve com outra editora. Agora foi lançada uma edição pocket, mais barata, que está tendo bastante sucesso. Mas o livro que eu mais gostei na verdade foi o último (“Linha d’Água”). Isso como texto, já que mais trabalhoso para mim porque era um pouco diferente, porque eu não estava relatando uma viagem bem-sucedida, mas, ao contrário, estava contando os insucessos que a gente vai acumulando ao longo das experiências.

Quais são seus próximos projetos?

Eu tenho conseguido viajar regularmente para as regiões polares, para a Antártida principalmente. Hoje eu tenho uma embarcação diferenciada para trabalhar nessas regiões no mundo. Esse ano ainda, com essa embarcação, pretendo ir à Antártida com o fotógrafo Sebastião Salgado, para terminar um projeto dele. Com o Sebastião eu descobri uma outra atividade, que talvez seja uma atividade econômica na minha vida, que é ganhar dinheiro com floresta. Eu sempre gostei muito de madeira, quem mexe com barco acaba se interessando, e, de certo modo, acaba se chocando com o desperdício que a madeira sofre no processo de construção naval.

Não acredito em certificação de madeiras tropicais, e é possível usar produtos alternativos de madeira laminadas, além de outras formas de energia. O Sebastião montou um projeto que me deixou muito impressionado, que foi a montagem de uma fábrica de florestas no Sul de Minas Gerais, que é a coisa mais séria que eu vi no mundo. Curiosamente, tenho uma área de floresta em Parati, a qual não pretendo transformar apenas em uma área de preservação. Hoje sei que se recuperarmos a cobertura florestal, podemos ganhar muito dinheiro. Estou tentando transformar isso em modelo para outras propriedades que podem ser utilizadas de uma maneira muito mais coerente e sensata. É um projeto que está bem no começo, mas estou muito balançado com o assunto. Além disso, também queremos manter uma base privada na Antártica para difusão do conhecimento da região.
 
Matéria produzida para o site Bradesco Universitários em 18/06/2007.

 
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1 comentário(s)
 
incompleto,horivel e chato.

Comentário de rai, 03/04/2011
 
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